O
número 9, ligado a Oyá, está na origem de seu nome Iansã e encontramos esta
referência no ex-Daomé, onde o culto de Oyá é feito em Porto Novo sob o nome de
Avsan, no bairro Akron (Lokoro dos Iorubas) e sob o de Absan, mais ao norte em
Baningbe. Esses nomes teriam por origem a expressão Aborimsan (com nove
cabeças), alusão aos supostos nove braços do delta do Níger.
O culto de Oyá não se limita aos mortos, Oyá antes de tudo é um Òrìṣà das
águas, como Òsun, Yemonjá, Nàná e etc., ela é um Òrìṣà da vida. Oyá tem seu
culto relacionado ao rio Níger, mas ela pode e deve ser cultuada nas águas de
um rio, independente de qualquer coisa. O que muda é a representação das águas
dos rios.
Os rios dentro do culto de Oyá representam caminhos seguros, caminhos que nos
levam ao fim devido, são as águas que nos guiam. Por esta razão é que Oyá é
chamada de a Mãe que guia, é ela quem guia os mortos para um das nove dimensões
do universo. Foi essa a incumbência que ela recebeu de Òlodúmarè, guiar os
mortos de acordo com suas ações para um dos nove céus, para assumir tal cargo
Oyá recebeu do feiticeiro Òsóòsi uma espécie de erukere especial chamado de
Erusin com o qual estaria protegida no trato com os Eguns
Orí
o! Orí Oyá, mo gbe de.
Oyá mesan, mesan, mesan.
Oyá oriri, o o o.
Oyá mesan, a ji l'oda òrìṣà.
Ori o, ori ol' Oyá, mo gbe de.
Orí mi!
Orí Oyá, mo gbe de.
O Orí do iniciado,
O Orí daquele que é iniciado em Oyá está aqui.
Oyá, que se desdobra em nove partes.
Oyá, a grande mulher, charmosa e elegante.
Oyá, que se desdobra em nove partes.
Òrìṣà que usa a espada ao acordar.
O Orí do iniciado, o Orí daquele que é iniciado em Oyá está aqui.
Meu Orí.
“O Orí daquele que é iniciado em Oyá está aqui.”
Transcrevemos
acima orin (cantiga) de Oyá, citado pelo Prof. Sikiru Salami em seu livro
"A mitologia dos Òrìṣà africanos". Nesta cantiga está presente a
associação entre Oyá e Orí. Esta associação nós encontramos, com grande
frequência, em muitos Oríkì (saudações) e Adura (rezas) do ebora Oyá.
Ela é chamada muitas vezes de: Oyá, a tun ori eni ti ko sunwon se,
Ou seja: Oyá, aquela que melhora o mau Orí.
Diz-se também: Mo b' Oyá wa. Mo m' ase Oyá b'ori. Orí mi gba 're,
Significando: Estou com Oyá. Estou com o Aşẹ de Oyá em meu Orí. Meu Orí recebeu
sorte.
Entre
os ebora femininos, Oyá é a que mais próxima se encontra do homem, refletindo
suas angústias, representando sua relação com a vida e a morte, traduzindo o
encontro entre o homem e a mulher, a paixão e a força vital neste encontro
presentes.
Tendo, fora de qualquer dúvida, sua natureza divina assegurada, Oyá divide com
Şàngó a natureza humana deste ebora, compartilhando seus projetos,
associando-se a ele em suas batalhas e unindo-se de tal forma a sua figura que
se pode dizer,
Oro ti Şàngó ba so,
Oyá lo ma tumoo re.
Eyin o mo pe Oyá lo maa gbo,
Oro ti Şàngó so ku.
Oro ti Şàngó fe so,
Oyá lo maa so.
O que Şàngó disser,
Oyá vai interpretar.
Vocês não sabem que Oyá vai entender o que Şàngó nem acabou de dizer?
O que ele quiser dizer,
Oyá é quem dirá.
Enquanto
Oyá está associada ao relâmpago, Şàngó está associado ao trovão, formando,
desta forma uma união simbólica entre os elementos masculinos e femininos,
coparticipantes do processo de criação da vida e, na sua comunhão, certeza da
continuidade dessa vida. Pares que, ao mesmo tempo em que se associa se
representam mutuamente, contendo cada um o elemento presente no outro.
Esta representação é tão marcante que podemos mesmo dizer que Oyá é o aspecto
feminino de Şàngó, ou ainda, que Şàngó é o aspecto masculino de Oyá, denotando,
desta forma a íntima relação e funcionalidade entre os gêneros, garantia da
geração da vida e de sua perpetuação na criação - Òrun e ayè, íntima e
indissociavelmente ligados dentro do projeto de Òlodúmarè.
De um lado a vida, de outro a morte - ciclo que se repete indefinidamente no
"sempre aqui e agora" do universo.
Segundo Juana Elbein dos Santos, em seu livro
"Os Nagô e a Morte", ÒYA "... está associada a um aspecto do ar,
ao vento e particularmente à tempestade e ao relâmpago (ar mais movimento =
fogo); e está associada aos ancestrais masculinos que ela dirige e
maneja..."
Um
Itan do Òdú Òsa méjì, relatando sobre os sacrifícios feitos por Oyá para ter
crianças, diz que:
" eles pegaram a carne de ovelha e fizeram remédio para ela. E ela comeu.
Quando ela deu à luz, ela deu à luz nove crianças. Ela é "a mãe que teve
nove". E isso é como Oyá tornou-se Iansã, "a mãe dos nove". A
carne de ovelha que ela comeu como prescrição para ter crianças nunca mais
tocou seus lábios novamente. Isso é porque Oyá não come ovelhas e esse animal é
èwò (tabu) para os seus adoradores..."
Pela sua relação com Eegun e o mundo dos mortos nos é possível entender o papel
de Oyá nos rituais de passagem que marcam a integração entre vida e morte. A yalòrìsá Stella de Osoosi, em seu livro "Meu tempo é agora", relata
um mito de Oyá que nos dá a dimensão
da relação do ebora com as cerimônias fúnebres dentro da esin Òrìṣà e que
resumimos a seguir.
“Oduleke, chefe de uma linhagem ilustre de caçadores e pai ancestral de todos
os Odes, era casado com Osun e tomou uma criança para criar”. Esta criança,
esperta e alegre, tornou-se a preferida de seu pai adotivo e recebeu o nome de
Oyá. A criança cresceu e tornou-se uma jovem que apreendeu com os pais as artes
da caça e os segredos da magia.
Um dia, velho e alquebrado, Oduleke é levado pela morte. Oyá, entristecida,
resolve fazer uma homenagem ao pai. Para tanto, reuniu os pertences de caça de
Oduleke enrolando-os em um pano por ela bordado. Preparou as comidas prediletas
de Oduleke e convidou todos os chefes caçadores para a cerimônia fúnebre.
Cantando e dançando, durante sete dias carregou na cabeça o "carrego"
com pertences de caça do pai. Sua voz foi levada aos quatro cantos do mundo
pelo vento, seu elemento mágico, e de todos os lugares se apresentaram
multidões de caçadores. Ao fim da sétima noite, Oyá acompanhada por todos os
Ode foi depositar o "carrego" ao pé de uma árvore sagrada situada
dentro da mata. O pássaro agbe, de penas azuis e brilhantes, deixou o galho da
árvore voando para o firmamento.
Oduleke
em Òrìṣà e Oyá na mãe dos espaços sagrados.” Desta forma estava criado o ajeje
- vigília do caçador (chamado no Brasil de asese), ritual fúnebre dentro da
religião do Òrìṣà.
Oyá está intimamente associada ao vento, então, podemos entender que ela exerce
papel essencial no processo de fertilização do reino vegetal, através da
polinização, transporte do pólen de uma planta para outra, permitindo sua
fecundação e a sua multiplicação. Da mesma forma, transporta sementes,
permitindo que o reino dos ebora Odé tenha garantida sua existência e
continuidade.
Essa hipótese, sem dúvida, merece estudo e trabalho específico, capaz de nos
permitir ampliar a perspectiva com que cultuamos o ebora Oyá e possivelmente,
encontrá-la em toda a sua grandeza e dimensão.
Um Itan do Òdú Ogbè méjì relata que Èşú, querendo castigar uma ave que não
fizera os sacrifícios prescritos por Ifá, lançou mão de Oyá para ajudá-lo...
Então adaba foi para o topo de outra árvore e colocou ovos lá.
Aqueles que ela colocou e os fazendeiros não podiam vê-los;
Èşú disse, 'Você Oyá, você os viu? '
E Oyá balançou a árvore e os ovos de abada caíram no chão...
Èépàà
heyi!
Oyá é saudada com a frase èépàà heyi! Onde "èépàà" representa uma
recomendação de calma, expressando quase terror diante de um poder
incontrolável para o homem e "heyi" é a reprodução do brado gutural
emitido por Oyá quando, incorporada em seus filhos, identifica-se aos
presentes.
Novamente é num verso de Ifá que podemos encontrar e origem deste brado.
A descrição da origem do grito contida no oráculo apresenta-o como reflexo da
violenta ameaça da deusa, em decorrência da negligência dos homens, de destruir
o mundo e não apenas torná-lo seco e estéril como pretendeu Òsun.
Flechas-de-caça-colocam-o-caçador-em-dúvida
Chuva-torrencial-dispersa-o-mercado-do-rei-de-Ifá
Estes são os nomes dos sacerdotes que Consultaram Ifá para Olúgbìjì,
uma pessoa de bem quando o encontraram em meio à rebelião.
Há um Òrìṣà, disseram os adivinhos, na sua família – Òrìṣà Dona-do-fogo.
Oh, disse Olúgbìjì, essa é Oyá.
Ela tem estado na família há muito, muito tempo.
Então você deve oferecer a ela, disseram eles, Duzentas porções de inhame
amassado, uma sopa de gbegiri, uma cabra branca, seis galos e 21 pedras.
Oyá aceitou a oferenda.
Ela se preparou.
As pessoas suplicaram:
Oyá dakun (Oyá, nós lhe imploramos!)
Mas Oyá não atendeu porque estava decidida a destruir completamente os inimigos
de Olúgbìjì.
E dizer Oyá dakun! de nada adiantava.
Eles não a demoveram.
Se você continuar com isso, Oyá, disseram as pessoas,
Você destruirá o mundo inteiro.
Você tem que aprender a aceitar um pedido.
Vá comprar um escravo, Oyá, eles disseram.
Um escravo saberá como respeitá-la.
Ele conhecerá todas as suas proibições
E ensinará as pessoas quando se arriscam a ofendê-la.
Ele fará seu nome cada vez mais conhecido.
O nome deste escravo era Ehin (dente)
Que nome esquisito! Disse Oyá.
Deve ser Heyi, ela bradou.
Depois disso, sempre que Oyá se enfurece as pessoas chamam Heyi,
Que é o que a pessoa possuída por Oyá chamada Heyi!
Mas a pessoa possuída não chama, não sabe!
É a própria Oyá que está chamando.
Agradecimento ao irmão
Bàbàláwo Ifálola Agboola
Bons conhecimentos sendo compartilhado