quarta-feira, 25 de julho de 2012

Criação do Mundo (Japão)


 A espuma do mar

Os gênios divinos Izanagi e Izanami foram encarregados pelos deuses celestes de criar o mundo. Que a tarefa mais difícil! O universo ainda estava no estágio do caos primitivo e parecia um oceano vasto e oleoso.
Lá em cima, estendia-se o céu, formado de partículas mais leves. E era só isso!

Izanagi e Izanami tinha nascido, como antes deles os deuses celestes, de embriões de vida que flutuavam aqui e ali nas estradas do oceano primitivo. No céu, onde  moravam, o gênio masculino Izanagi e sua companheira Izanami perguntavam a si mesmos como iriam cumprir sua missão.
Numa balsa celeste, percorreram toda a extensão de seu domínio, mas não encontraram nada que se parecesse com terra.

Se existe alguma terra, lá embaixo, onde caíram as partículas mais pesadas do Universo.
Então, foram buscar a lança de jade do céu, que era incrustada com mil pedras preciosas e brilhava com mil fogos. Usando-a como se fosse uma vara bem comprida, sondaram as profundezas desconhecidas.

Quando a ponta da lança encontrou a superfície do oceano, Izanagi e Izanami fizeram girar, tal qual uma colher a mexes numa panela. O liquido, que já era espesso, ficou ainda mais grosso, e os cristais que continha aglutinaram-se. Os gênios suspenderam a lança: dela caíram gotas que deram origem a uma ilha, chamada Onogoro, isto é, " Ilha que se modifica sozinha ".

- Vamos descer e viver nessa ilha - Propôs Izanagi - Nela, prosseguiremos nossa missão.

Os dois gênios, aproveitando um arco-iris como passarela, aterraram  em seu novo domínio. Lá, resolveram casar-se e criar outras terras, que amarrariam firmemente sobre o oceano, não muito longe do Onogoro. Assim, aquela primeira terra  passou a ser o pilar central do mundo.

Antes de unirem-se Izanagi e Izanami contornaram Onogoro para, simbolicamente, tomar posse da ilha. Izanami partiu para a direita, e Izanagi, para a esquerda. Quando se encontraram, o gênio feminino exclamou:

- Que alegria casar com você, Izanagi!
- Infeliz! - respondeu ele.
- Não devia ter falado primeiro, pois é mulher... Vamos fazer a cerimônia de novo...

dessa vez, tudo correu dentro da ordem, e a raiva de Izanagi passou. Da união dos dois gênios nasceram várias ilhas. Por causa do erro de Izanami na cerimônia de casamento, as primeiras não ficaram bem formadas, e o casal deixou-as flutuar à deriva no oceano.

As que surgiram depois tornaram-se as oito principais ilhas do Japão.

Na bolsa celeste, os gênios sondaram o oceano primitivo.

Por  Narayna Sad

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Criação do Mundo (Polinésia)

Os filhos do céu e da Terra


Antes de formar-se o mundo,não existia nada, nem sons, nem cheiros, nem formas, nem movimentos, nem vida, nem matéria. Só havia o vazio ilimitado, imperceptível.

Quanto tempo isso durou? Ninguém pode dizer, pois o próprio tempo nao existia.

No entanto, nessa escuridão imóvel surgiu um aroma, primeiro muito leve, entao cada vez mais forte. Flutuavano espaço inanimado. Nascera nos confins do vazio, na direção que muito mais tarde os homens chamariam Oriente. Depois, sempre desse mesmo lado, a escuridão rompeu-se e apareceu a luz. Nos raios dessa luz, dançavam grãos de poeira, pois o movimento e a matéria tambem haviam nascido. Estava começando a grande desordem que levaria à formação do Universo.

No espaço cósmico, ainda agitado e caótico, aos poucos se formaram dois elementos: A Terra (Papa) e o Céu (Rangi).

Papa e Rangi  flutuavam no espaço, distantes um do outro. Mas uma força irresistivél fez que se aproximassem. Será que o Céu estava apaixonado pela Terra? Podia ser, já que, quando conseguiram reunir-se, Papa e Rangi  ficaram bem abraçados. Em pouco tempo, no meio da escuridão encurralada entre eles, nasceram vários Deuses.

À medida que cresciam, os filhos do Céu e da Terra, sentiam-se apertados entre os pais. Estavam cheios de energia, mas nada podiam fazer, presos entre duas massas que pareciam inseparáveis. Então, eles resolveram agir.

Tu o mais violento, queria uma solução radical: matar Papa e Rangi. Mas os irmãos não aceitavam a proposta. Tawhiri penssava ter encontrado um meio de sair de junto dos pais sem separá-los. Como era o Deus dos ventos, foi fácil deslizar entre os dois e soltar-se.

Os outros Deuses, porém, não podiam fazer o mesmo. Precisavam separar o Céu e a Terra, com delicadeza, sem machuca-los.

Quem se encarregou disso foi Tane.

Ele era o Deus das florestas e esguiu o exemplo das árvores, cujas raízes fincam-se no chão enquanto a folhagem acaricia o Céu.
Apoiando os pés de encontro ao pai e a cabeça de encontro à mãe, foi enticando-se, esticando-se e conseguiu separar os pais. No mesmo instante a luz penetrou no mundo.

Mas não contavam com a cólera do Céu, Furioso por ter sido forçado a largar sua esposa, ele chamou Tawhiri e ordenou-lhe que lançasse uma tempestade sobre a Terra, onde seus irmãos tinham ficado. Tawhiri, contrariado com a separação dos pais, não se fez de rogado.

Com seu sopro forte, desencadeou vendavais, rasgou nuvens, levantou as ondas do mar ( onde seu irmão Tangaroa se refigiaria ), quebrou as árvores das florestas do Deus Tane e inundou as terras férteis sobre as quais reinavam os dois outros irmãos, Deuses da vegetação.

Foi uma debandada. Enquanto Tane conseguia, apesar da tempestade, manter os pais separados, os répteis que até então habitavam o fundo do mar saíram da água para refugiar-se nas florestas. Os Deuses da vegetação abandonaram seu domínio e foram esconder-se debaixo do solo.

Sozinho, o violento Tu continuou a batalhar contra seu irmão Tawhiri.
Foi um combate encarniçado. Quando finalmente Tu conseguiu dominar o Deus do ventos, as inundações recuaram, e a tempestade amainou. Derrotado, Tawhiri foi banido, condenado ao exílio ao ladodo pai, Céu. Depois, Tu voltou-se contra os irmãos que o haviamabandonado. Vencendo mais uma vez, confiou cada um  a seu dom´nio, mas reservou-se o direito de explorar as riquezas do mar, das florestas e do solo.

En fim, senhor de um mundo calmo e luminoso, Tu decidiu coroar sua obra de criação. Com um punhado de barro vermelho, modelou Hine, a primeira mulher, à qual se uniu para dar origem aos humanos.


Tane apoiou-se na Terra e elevou o Céu

Por Narayana Sad

Criação do Mundo (Finlândia)

A águia dos ovos de ouro


Luonnotar, moça linda e etéra, deslizava no azul. Fazia isso a anos, séculos talvez... Filha da natureza, flutuava no espaço infinito e deserto. Pouco a pouco, sentiu-se invadir por grande  cansaço. Estava farta daquela existência solitária, queria  conhecer outras coisas...

Longe, muito longe, no fundo do domínio aéreo de Luonnutar, ficava o mar, tambem o infinito. A moça tomou impulso e, a toda a velocidade, desceu das alturas onde vivia. Foi pousar em pleno oceano, sobre a crista da ondas. Quando soprou um vento violento, ela conheceu a tempestade e ficou muito tempo à deriva, jogada de um lado para o outro, como um barquinho frágil.

Depois,  veio a calamaria e Luonnotar sentiu dentro de si uma força nova. Soube então que estava esperando um filho, o qual só nasceria quando ela tivesse  preparado o mundo para recebê-lo.

Durante nove anos, Luonnotar explorou o mar  sem fim, na esperança de descobrir  uma praia onde pudesse parar para descançar.

Mas foi em vão. Estaria condenada a vagar para sempre sobre as ondas? Ficou com medo e chorou, implorando piedade ao Deus supremo , Ukko, senhor das  vastas regiões do ar.

Com os olhos ofuscados pelas lágrimas, não viu a àguia de enormes asas que voava sobre a imensidão marinha. Era uma fêmea, em busca de um lugar para constrir seu ninho. Mas, coitada, aquele mundo de água e vento não lhe oferecia nenhum abrigo,  e ela começou a distanciar-se lançando gritos muito tristes.

Luonnotar ouvi-a e, boiando de costas para melhor enxergar o pássaro, lenantou um joelho sobre as ondas. A águia mergulhou para ilhota providencial, onde logo contruiu um ninho e botou sete ovos - seis de ouro e um de ferro.

A ave chocou os ovos durante três dias. Luonnotar nem ousava mexer-se, mas ao fim do terceiro dia sentiu o joelho arder e não conseguiu permanecer imóvel. Esticou a perna e sacudiu-a. Os Ovos rolaram, cairam na água e quebraram-se. Entretanto, em vez de afundarem, os diferentes elementos que compunham  cada ovo transformaram-se, sob o olhar espantado de Luonnotar. As cascas quebradas dos ovos de ouro ficaram gigantescas. Umas subiram,  bem  leves, até as regiões mais altas do ar, onde, supensas, formaram a abóbada celeste. Outras se juntaram para formar a Terra. As gemeas tornaram-se o Sol; as claras, a Lua. Já os pedacinhos das cascas deram origems estrelas e às nuvens, confrme fossem  dos ovos de ouro ou do ovo de ferro.

Durante nove longos anos, Luonnotar continuou  à deriva. Agora, já podia distrair-se contemplando o novo mundo que a cercava. Mas acabou cansando-se outra vez, pois aquela Terra jovm era inteiramente plana e monótona. Por isso, no décimo verão, Luonnotar resolveu embelezá-la com esculturas. Para esse trabalho de artista, utilizou seu próprio corpo. Onde estendia o braço, nascia um promontório. Modelou o litoral alisando-o com os quadris ou batendo-o com a testa. Seus pés desenharam vales, e suas mãos criaramilhas e rochedos. Mergulhou no fundo do abismo marinho e escavou grutas e cavernas. Onde encostava o corpo, brotaram fontes fontes e rios.

Depois que se afastava, surgiram lagos, os quais serviam de espelho ao sol. Terminado o trabalho, Luonnotar enfim pôs no mundo o filho que trazia no ventre havia tantos anos - o herói Wainamoinen, que seria o primeiro e cultivar a Terra modelada por sua mãe.

Emergindo do Oceano, Luonnotar esculpiu a Terra.



sexta-feira, 15 de junho de 2012

Criação do Mundo (Catolicos)


Por um simples ato de sua vontade, Deus fez o mundo – a partir do nada, pois, no princípio, só Ele – Eterno – existia.

Conta a Bíblia, no Gênesis, que Deus criou o mundo em seis dias e no sétimo descansou. Estes "seis dias" correspondem a épocas que podem ter durado milhões de anos. Como já foi dito, a intenção do autor sagrado não era fazer obra científica. Sua finalidade era levar aos homens o conhecimento de Deus. Por isso Moisés usou a linguagem de seus contemporâneos, aludindo a fenômenos da natureza, empregando imagens alegóricas.

PRIMEIRO DIA

"No Princípio, Deus criou o céu e a terra", isto é, o mundo espiritual e o mundo corporal. Ai o céu é o mundo espiritual, o mundo de nosso destino definitivo, após vivermos no mundo passageiro. O mundo material começou em estado de caos (sem forma, nem luz).

A matéria primitiva, que foi chamada por Moisés de terra, por efeitos das leis naturais (estabelecidas por Deus), modificou-se. Esta evolução é devida não à essência da matéria, mas à vontade de Deus, expressa por Sua palavra criadora "Faça-se"

Segundo cientistas, esta matéria primitiva seria gasosa e ocupava o universo. Ora, isso não contraria a narrativa bíblica, pois todos os metais e todos os minerais elevados a uma temperatura suficiente se tornam gasosos, ocupando um espaço bem maior (todo o universo). Além disso, a análise espectral demonstra que o sol, os planetas e as estrelas fixas são compostos dos mesmos elementos que a terra, o que permite a conclusão de uma origem comum.

De acordo com a Bíblia, ainda, no "primeiro dia", Deus disse: "Faça-se a luz". A força de atração (Gravidade) e o choque dos átomos produziram a luz e o fogo.

"E a luz existiu". Imaginemos o clarão de uma imensa bola de fogo explodindo no espaço. (Calcula-se que essa explosão radioativa se deu há cerca de 18 bilhões de anos)

SEGUNDO DIA

No "segundo dia", Deus fez o firmamento e separou umas águas das outras. Houve a separação, ordenação e solidificação das massas criadas.

"E Deus chamou o firmamento de céu" (não se trata, ai porém, do céu dos espíritos, mas sim da atmosfera terrestre). Uma parte daquela massa cósmica, solidificada, passou a constituir a terra propriamente dita.

TERCEIRO DIA

A partir do "terceiro dia", deixando os outros astros, que continuaram a se formar, Moisés ocupa-se exclusivamente com a terra. Neste período (calculado por estudiosos em alguns milhares de anos depois de formada), a terra, em fusão, pelo contínuo resfriamento, passou do estado gasoso para o líquido. Continuando a perda de calor, formou-se a crosta sólida.

"As águas que estão debaixo do céu juntem-se num só lugar e apareça o elemento árido. E Deus chamou ao elemento árido, terra e ao conjunto das águas, mares". Com o solo úmido e sob a influência do calor e da luz, formou-se o ambiente para o surgimento da vida. E nasceram as plantas.
QUARTO DIA

No "quarto dia". Deus disse: "Sejam feitos, luzeiros no firmamento do céu e separem o dia da noite, sirvam para sinais e para distinguir os tempos, os dias e os anos".

Pelo contínuo resfriamento da terra, com as águas exalando menos vapor, os outros astros tornaram-se visíveis e, ao mesmo tempo, a influência do sol se manifesta na distinção dos dias e das noites e nas estações do ano.

QUINTO DIA

No "quinto dia" surgem os peixes e as aves. Pela primeira vez aparece a palavra VIDA. Aqui o autor volta ao verbo criar (omitido nos outros "dias"), querendo, talvez, significar que a vida, como a matéria bruta, só se poderia originar por especial intervenção divina.

SEXTO DIA

No "sexto dia", Deus fez os outros animais e, por fim, o HOMEM – o homem, como síntese, como acabamento, tendo em si todas as formas de vida (vegetativa, animal e racional).

SÉTIMO DIA

No "sétimo dia", "Deus descansou". "E abençoou o sétimo dia e o santificou". Santificar, significa "reservar para Deus". "Descansando", "abençoando" e "santificando" o "sétimo dia", Deus nos adverte que "o homem, elevando consigo as demais criaturas, deve voltar-se para Deus, onde tudo encontra repouso e consumação"

COMPLEMENTAÇÃO


Nenhuma das sentenças propostas para explicar a origem do universo procede além de uma massa de matéria primitiva, donde todos os corpos derivam. Esta massa é simplesmente pressuposta e os cientistas só traçam a gênese do mundo a partir dela. Isto é legítimo, pois a observação não lhes permite ir além. A sã razão, e muito mais a fé, compete completar o explicação da ciência.

A matéria não pode ser eterna, pois ela tem uma história ou evolução – e o que muda não tem, por si mesmo, plenitude de ser, perenidade ou eternidade. Ora, quem daria início à matéria primitiva, senão alguém eterno e imutável, tendo em si mesmo a perfeição do ser, conhecendo a razão de ser das coisas que mudam, que ora são, ora não são (pois passam por estágios diferentes), que hoje se apresentam de um modo, amanhã de outro?

Por um ato de soberana potência, somente Deus poderia fazê-lo. Esta é mais uma conclusão da reta inteligência, e uma das afirmações básicas da fé.

Sócrates, Platão, Aristóteles, gênios da humanidade, proclamaram em sua Filosofia a existência de um Deus, criador do universo. E os gregos em geral, além e acima de deuses de sua fantástica mitologia, admitiam um "Deus desconhecido". A idéia de uma divindade criadora está presente em todos os povos de todos os tempos.

Relativamente ao descanso de Deus, o homem deve trabalhar com ordem e harmonia – e fazer uma pausa para contemplar sua obra, analisá-la, meditar e, como criatura, louvar o Criador.

Depois da criação, "Deus viu todas as coisas que tinha feito e viu que eram boas".

Por Narayna Sad

sexta-feira, 18 de maio de 2012

OYÀ MESAN ÒRUN

O número 9, ligado a Oyá, está na origem de seu nome Iansã e encontramos esta referência no ex-Daomé, onde o culto de Oyá é feito em Porto Novo sob o nome de Avsan, no bairro Akron (Lokoro dos Iorubas) e sob o de Absan, mais ao norte em Baningbe. Esses nomes teriam por origem a expressão Aborimsan (com nove cabeças), alusão aos supostos nove braços do delta do Níger.
O culto de Oyá não se limita aos mortos, Oyá antes de tudo é um Òrìṣà das águas, como Òsun, Yemonjá, Nàná e etc., ela é um Òrìṣà da vida. Oyá tem seu culto relacionado ao rio Níger, mas ela pode e deve ser cultuada nas águas de um rio, independente de qualquer coisa. O que muda é a representação das águas dos rios.

Os rios dentro do culto de Oyá representam caminhos seguros, caminhos que nos levam ao fim devido, são as águas que nos guiam. Por esta razão é que Oyá é chamada de a Mãe que guia, é ela quem guia os mortos para um das nove dimensões do universo. Foi essa a incumbência que ela recebeu de Òlodúmarè, guiar os mortos de acordo com suas ações para um dos nove céus, para assumir tal cargo Oyá recebeu do feiticeiro Òsóòsi uma espécie de erukere especial chamado de Erusin com o qual estaria protegida no trato com os Eguns

 Orí o! Orí Oyá, mo gbe de.
Oyá mesan, mesan, mesan.
Oyá oriri, o o o.
Oyá mesan, a ji l'oda òrìṣà.
Ori o, ori ol' Oyá, mo gbe de.
Orí mi!
Orí Oyá, mo gbe de.

O Orí do iniciado,
O Orí daquele que é iniciado em Oyá está aqui.
Oyá, que se desdobra em nove partes.
Oyá, a grande mulher, charmosa e elegante.
Oyá, que se desdobra em nove partes.
Òrìṣà que usa a espada ao acordar.
O Orí do iniciado, o Orí daquele que é iniciado em Oyá está aqui.
Meu Orí.
“O Orí daquele que é iniciado em Oyá está aqui.”

Transcrevemos acima orin (cantiga) de Oyá, citado pelo Prof. Sikiru Salami em seu livro "A mitologia dos Òrìṣà africanos". Nesta cantiga está presente a associação entre Oyá e Orí. Esta associação nós encontramos, com grande frequência, em muitos Oríkì (saudações) e Adura (rezas) do ebora Oyá.

Ela é chamada muitas vezes de: Oyá, a tun ori eni ti ko sunwon se,

Ou seja: Oyá, aquela que melhora o mau Orí.

Diz-se também: Mo b' Oyá wa. Mo m' ase Oyá b'ori. Orí mi gba 're,

Significando: Estou com Oyá. Estou com o Aşẹ de Oyá em meu Orí. Meu Orí recebeu sorte.
 
Entre os ebora femininos, Oyá é a que mais próxima se encontra do homem, refletindo suas angústias, representando sua relação com a vida e a morte, traduzindo o encontro entre o homem e a mulher, a paixão e a força vital neste encontro presentes.

Tendo, fora de qualquer dúvida, sua natureza divina assegurada, Oyá divide com Şàngó a natureza humana deste ebora, compartilhando seus projetos, associando-se a ele em suas batalhas e unindo-se de tal forma a sua figura que se pode dizer,

Oro ti Şàngó ba so,
Oyá lo ma tumoo re.
Eyin o mo pe Oyá lo maa gbo,
Oro ti Şàngó so ku.
Oro ti Şàngó fe so,
Oyá lo maa so.

O que Şàngó disser,
Oyá vai interpretar.
Vocês não sabem que Oyá vai entender o que Şàngó nem acabou de dizer?
O que ele quiser dizer,
Oyá é quem dirá. 

Enquanto Oyá está associada ao relâmpago, Şàngó está associado ao trovão, formando, desta forma uma união simbólica entre os elementos masculinos e femininos, coparticipantes do processo de criação da vida e, na sua comunhão, certeza da continuidade dessa vida. Pares que, ao mesmo tempo em que se associa se representam mutuamente, contendo cada um o elemento presente no outro.

Esta representação é tão marcante que podemos mesmo dizer que Oyá é o aspecto feminino de Şàngó, ou ainda, que Şàngó é o aspecto masculino de Oyá, denotando, desta forma a íntima relação e funcionalidade entre os gêneros, garantia da geração da vida e de sua perpetuação na criação - Òrun e ayè, íntima e indissociavelmente ligados dentro do projeto de Òlodúmarè.
De um lado a vida, de outro a morte - ciclo que se repete indefinidamente no "sempre aqui e agora" do universo.
Segundo Juana Elbein dos Santos, em seu livro "Os Nagô e a Morte", ÒYA "... está associada a um aspecto do ar, ao vento e particularmente à tempestade e ao relâmpago (ar mais movimento = fogo); e está associada aos ancestrais masculinos que ela dirige e maneja..."

Um Itan do Òdú Òsa méjì, relatando sobre os sacrifícios feitos por Oyá para ter crianças, diz que:

" eles pegaram a carne de ovelha e fizeram remédio para ela. E ela comeu. Quando ela deu à luz, ela deu à luz nove crianças. Ela é "a mãe que teve nove". E isso é como Oyá tornou-se Iansã, "a mãe dos nove". A carne de ovelha que ela comeu como prescrição para ter crianças nunca mais tocou seus lábios novamente. Isso é porque Oyá não come ovelhas e esse animal é èwò (tabu) para os seus adoradores..."

Pela sua relação com Eegun e o mundo dos mortos nos é possível entender o papel de Oyá nos rituais de passagem que marcam a integração entre vida e morte. A yalòrìsá Stella de Osoosi, em seu livro "Meu tempo é agora", relata um mito de Oyá que nos dá a
dimensão da relação do ebora com as cerimônias fúnebres dentro da esin Òrìṣà e que resumimos a seguir.

“Oduleke, chefe de uma linhagem ilustre de caçadores e pai ancestral de todos os Odes, era casado com Osun e tomou uma criança para criar”. Esta criança, esperta e alegre, tornou-se a preferida de seu pai adotivo e recebeu o nome de Oyá. A criança cresceu e tornou-se uma jovem que apreendeu com os pais as artes da caça e os segredos da magia.

Um dia, velho e alquebrado, Oduleke é levado pela morte. Oyá, entristecida, resolve fazer uma homenagem ao pai. Para tanto, reuniu os pertences de caça de Oduleke enrolando-os em um pano por ela bordado. Preparou as comidas prediletas de Oduleke e convidou todos os chefes caçadores para a cerimônia fúnebre.

Cantando e dançando, durante sete dias carregou na cabeça o "carrego" com pertences de caça do pai. Sua voz foi levada aos quatro cantos do mundo pelo vento, seu elemento mágico, e de todos os lugares se apresentaram multidões de caçadores. Ao fim da sétima noite, Oyá acompanhada por todos os Ode foi depositar o "carrego" ao pé de uma árvore sagrada situada dentro da mata. O pássaro agbe, de penas azuis e brilhantes, deixou o galho da árvore voando para o firmamento.
 
Oduleke em Òrìṣà e Oyá na mãe dos espaços sagrados.” Desta forma estava criado o ajeje - vigília do caçador (chamado no Brasil de asese), ritual fúnebre dentro da religião do Òrìṣà.

Oyá está intimamente associada ao vento, então, podemos entender que ela exerce papel essencial no processo de fertilização do reino vegetal, através da polinização, transporte do pólen de uma planta para outra, permitindo sua fecundação e a sua multiplicação. Da mesma forma, transporta sementes, permitindo que o reino dos ebora Odé tenha garantida sua existência e continuidade.

Essa hipótese, sem dúvida, merece estudo e trabalho específico, capaz de nos permitir ampliar a perspectiva com que cultuamos o ebora Oyá e possivelmente, encontrá-la em toda a sua grandeza e dimensão.

Um Itan do Òdú Ogbè méjì relata que Èşú, querendo castigar uma ave que não fizera os sacrifícios prescritos por Ifá, lançou mão de Oyá para ajudá-lo... Então adaba foi para o topo de outra árvore e colocou ovos lá.
Aqueles que ela colocou e os fazendeiros não podiam vê-los;
 
Èşú disse, 'Você Oyá, você os viu? '
E Oyá balançou a árvore e os ovos de abada caíram no chão...
Èépàà heyi!

Oyá é saudada com a frase èépàà heyi! Onde "èépàà" representa uma recomendação de calma, expressando quase terror diante de um poder incontrolável para o homem e "heyi" é a reprodução do brado gutural emitido por Oyá quando, incorporada em seus filhos, identifica-se aos presentes.

Novamente é num verso de Ifá que podemos encontrar e origem deste brado.
A descrição da origem do grito contida no oráculo apresenta-o como reflexo da violenta ameaça da deusa, em decorrência da negligência dos homens, de destruir o mundo e não apenas torná-lo seco e estéril como pretendeu Òsun.

Flechas-de-caça-colocam-o-caçador-em-dúvida
Chuva-torrencial-dispersa-o-mercado-do-rei-de-Ifá
Estes são os nomes dos sacerdotes que Consultaram Ifá para Olúgbìjì,
uma pessoa de bem quando o encontraram em meio à rebelião.
Há um Òrìṣà, disseram os adivinhos, na sua família – Òrìṣà Dona-do-fogo.
Oh, disse Olúgbìjì, essa é Oyá.
Ela tem estado na família há muito, muito tempo.
Então você deve oferecer a ela, disseram eles, Duzentas porções de inhame amassado, uma sopa de gbegiri, uma cabra branca, seis galos e 21 pedras.
Oyá aceitou a oferenda.
Ela se preparou.
As pessoas suplicaram:
Oyá dakun (Oyá, nós lhe imploramos!)
Mas Oyá não atendeu porque estava decidida a destruir completamente os inimigos de Olúgbìjì.
E dizer Oyá dakun! de nada adiantava.
Eles não a demoveram.
Se você continuar com isso, Oyá, disseram as pessoas,
Você destruirá o mundo inteiro.
Você tem que aprender a aceitar um pedido.
Vá comprar um escravo, Oyá, eles disseram.
Um escravo saberá como respeitá-la.
Ele conhecerá todas as suas proibições
E ensinará as pessoas quando se arriscam a ofendê-la.
Ele fará seu nome cada vez mais conhecido.
O nome deste escravo era Ehin (dente)
Que nome esquisito! Disse Oyá.

Deve ser Heyi, ela bradou.
Depois disso, sempre que Oyá se enfurece as pessoas chamam Heyi,
Que é o que a pessoa possuída por Oyá chamada Heyi!
Mas a pessoa possuída não chama, não sabe!
É a própria Oyá que está chamando.

Agradecimento ao irmão 
Bàbàláwo Ifálola Agboola
Bons conhecimentos sendo compartilhado